#DissecandoaLetra | Meu Amigo Pedro, Raul Seixas

Desde pequena, sempre gostei do Raul Seixas. Culpa de quem? Do meu pai.
As músicas tocavam no carro dele, e eu sempre dava risada de Gita, quando chegava na parte do "eu sou a mosca da sopa". Criança, né? Fazer o quê. É meio difícil encontrar uma criança com o poder de refletir sobre a letra de determinada música e entender seu verdadeiro significado.
Porém, ninguém é criança pra sempre. 

Há alguns dias atrás eu estava no ônibus, indo pro trabalho e ouvindo Meu Amigo Pedro, do Raul. Do nada, passei a reparar na letra e pensar sobre ela (sim, eu sou dessas que filosofa no busão).
Percebi que muitos se atém ao refrão: "Pedro onde cê vai eu também vou", e acreditam ser uma música sobre amizade.
Mas a música é, na verdade, uma crítica aos alienados pelo capitalismo. 
Uma crítica àqueles que acham que apenas um estilo de vida é válido: gostando ou não, você tem que trabalhar de carteira assinada, não faltar, não atrasar, usar seu uniforme, ter isso, ter aquilo, conquistar metas, crescer na empresa, ganhar muito dinheiro, etc. Quem viver diferente é vagabundo. 
Pra quem não entendeu, vou dissecar a letra e provar isso em partes:

Muitas vezes, Pedro, você fala

Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não

Quem te fez com ferro: algo seguro
Fez com fogo: algo que queima, arde.
Pedro acha que está na forma mais segura de vida, uma garantia de segurança, de nunca falir e nunca ficar sem seu dinheiro, seu ganha pão. Mas essa forma de vida não faz ele feliz, ele se sente isolado. E mesmo assim insiste que esse é o modo certo de viver.

Resultado de imagem para raul seixas

Vai pro seu trabalho todo dia

Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro, as coisas não são bem assim

Ele nem sabe se gosta mesmo disso, apenas vai e finge pra si mesmo e para os outros que tá tudo bem. Quem nunca. né?

Toda vez que eu sinto o paraíso

Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você, meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno

Raul prefere apenas viver. Às vezes ele sente o paraíso, às vezes sente o inferno, mas o Pedro está sempre na mesma rotina. Sempre com o mesmo terno.

Pedro, onde você vai eu também vou

Pedro, onde você vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou

Essa é a parte que todos confundem com amizade,
Não é. 
Os dois vão pro mesmo lugar: a morte. No final todos morrem, o ser humano não é imortal.
Tudo acaba onde começou: nascemos pelados, carecas e banguelas. Sem nada, as posses são dos nossos pais, não nossas. E morremos sem nada, porque depois que morremos acabou tudo. Então pra que seguir as regras de uma "vida certa", se no final nada importa?

Imagem relacionada


Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura

Tenta explicar por que é tão importante seguir um padrão de vida, Pedro. Do que você está se protegendo?
Ah, você não sabe?
Então cala a boca e deixa eu ser feliz. Eu estou bem assim.


Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo

Há uns anos, os dois eram próximos, refletiam, pensavam. Mas cada um seguiu um caminho. 
O foda é que Raul prefere o estilo "maluco beleza" de viver sem regras, e Pedro prefere uma vida mais regrada. E certas diferenças dividem as pessoas, gerando rótulos: nesse caso, o careta e o vagabundo.


Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos, tantas portas
Mas somente um tem coração

Todos os caminhos são iguais, o que leva à glória ou à perdição: ou seja, não importa se você tem tudo ou não tem nada, mais uma vez, todos morrem no final. Todos vão para o mesmo lugar.
Mas somente um tem coração. E qual seria esse?
Suponho que seja o que te faz feliz durante a vida.


E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou

Pedro, se você quer seguir certas regras, siga. A escolha é sua.
Mas na minha vida, eu é que mando. Não me critique.
Cada um tem seu modo de viver, e maaais uma vez: todos vão para o mesmo lugar (não preciso repetir qual é, né? Já tá ficando chato).

Faltaram alguns trechos da música? Sim, mas eram repetições, então tá tudo certo.
Bora ouvir a música agora?











Share:

2 Fumados comentaram aqui

  1. Ooi amanda; muito bom o texto, e a análise da letra. Raul era um crânio! A maioria das músicas sérias dele, pode notar, traz uma mensagem, uma crítica, uma reflexão... É como em "mamãe eu não queria", "Cowboy fora da lei" ou "você" (que tem uma letra bem profunda, se pensarmos bem). Mas minha música preferida do Raulzito é "Quando você crescer". Não é uma música famosa; não ficou conhecida, nem teve tanta repercussão. Mas é foda! Vou deixá-la no link aqui em baixo, ouça lá e diga o que acha.

    E quase que me esqueço. Tem também "baby", uma composição onde Raul fala de feminismo, sabe qual é, né? Enfim, a maioria das músicas do cara são interessantes.

    E olha o linkzinho: http://www.youtube.com/watch?v=6AbEIGF0rAI

    Vou nessa, tchau...

    Obs: eu sempre pensei que "dissecando" fosse escrito com "C", mas agora fui ver no dicionário, e é com "SS" mesmo...

    ResponderExcluir
  2. Muito bom este post, filosofar no busão também faço de vez enquando. Raul Seixas possuia uma genialidade que poucos compreendem, mas você se saiu bem, meus parabéns.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

    ResponderExcluir

E aí, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de dizer que sou um lixo, me mandar pra puta que pariu? Comenta aí!

Obs: Não pagarei seu cardiologista nem seu psicólogo/psiquiatra caso acabe precisando.