Ninguém pode te bater tão forte quanto a vida

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Eu realmente não sei como começar esse post. Estou escrevendo no exato momento em que terminei essa temporada, e confesso que entrei em um estado catatônico: pela primeira vez deixei os créditos finais irem até o fim. O que foi aquilo?
Eu ainda estou tentando decidir se eu elogio essa temporada ou se eu xingo. Primeiro eu pensei no quão injusto era as coisas terminarem tão mal: primeiro parecia haver uma luz, depois tudo desmoronou. E eu, que esperava uma vitória, vi uma derrota.
Mas depois percebi que isso era um puto choque de realidade, e que a série estava apenas mostrando o que acontece nos presídios, como as pessoas tratam umas às outras, e como todo mundo ama fazer justiça com as próprias mãos, sem saber o que está fazendo.
Vou tentar ir aos poucos, clique em continue lendo para ver no que vai dar (já vou avisando que vai ter spoilers pra caralho, você vai descobrir se a Dayanara atirou ou não no  cara, e sinceramente? Isso é o de menos considerando o resto todo).

Em primeiro lugar, Dayanara é uma mula mesmo. "Eu preciso de concentração, façam silêncio". ¬¬
Ela tava pronta pra atirar no cara, tava na posição perfeita, era só apertar o gatilho que ele morria. Mas primeiro ela decidiu atirar no teto pra fazer as gralhas calarem a boca (nesse caso eu entendo, também odeio gritaria e queria poder fazer isso no meu dia a dia), depois atirou nele, mas não onde deveria. Nem vi direito onde acertou, se foi na virilha, no pênis ou na mão que tava tentando cobrir essas partes (obviamente sem sucesso).
A princípio isso me revoltou, porque eu achei que não ia ser grande coisa. Mas foi, por algum motivo ele teve o que parecia ser um AVC: um dos lados dele paralisou e ficou todo deformado, e ele foi piorando até morrer. Eu não entendo muito de doenças e termos médicos, mas já me falaram um pouco sobre essa doença, e quando fui pesquisar pra embasar minha comparação, vi que os sintomas eram bem parecidos. E o AVC é causado por um entupimento dos vasos que levam sangue ao cérebro (no caso do AVC isquêmico), ou um rompimento do vaso provocando sangramento no cérebro (no caso do AVC hemorrágico, que me parece ser o caso dele).


Continuando, teve tanta coisa legal nessa temporada, o mesmo humor de sempre, boas risadas pra dar (as youtubers foram um bom exemplo disso, hahaha)... mas ao mesmo tempo, muita coisa triste e revoltante.
Aquela rebelião é um dos motivos pra eu gostar da Taystee: ela é hilária, maluca, mas é muito inteligente e luta com todas as forças pelos seus ideais. 
Mas foi horrível ver as detentas violentando umas às outras, simplesmente por discordâncias em relação à metodologia.
É muito difícil falar sobre essa temporada sem fazer um textão: é quase uma da manhã, eu preciso dormir mas ao tempo tempo, preciso falar sobre isso.
O que era o sofrimento da Diaz pra tentar ver o filho dela que tava em coma no hospital? Foi tão triste! Convenceram ela a soltar os guardas reféns para, em troca, poder ganhar uma licença pra acompanhar o tratamento do filho, que estava muito doente, e adivinha? Nada. Quando ela já tinha feito um buraco na cerca para sair com os guardas, outras detentas meteram o bedelho e foi tudo em vão. As detentas que estavam mantendo eles reféns e fazendo aquele jogo de tortura vingativa perceberam o plano, e mesmo quando ela explicou que era por causa do filho dela, simplesmente não se importaram e sequestraram ela também. 
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E o trágico fim daquela rebelião? Elas estavam quase conseguindo o que queriam, mas para a Taystee faltava uma coisa: prender o guarda Bayley, que matou a Poussey (esse era o motivo inicial da rebelião).
Mas a burocracia não permitia que aquilo fosse feito sem uma investigação antes (milhões de detentas viram aquilo acontecer, mas será que a palavra delas conta?).
E olha, esse "quase" foi porque acharam que os guardas reféns haviam sido soltos a mando da Taystee, mas quando descobriram que foi obra de outras detentas, fodeu.
Aquele monte de policiais armados atacou a prisão, e a destruição foi feita: milhares de detentas apanharam, foram algemadas. Algumas eram até inocentes: ou estavam no gramado tentando não se meter, e outras estavam apenas seguindo a onda, sem torturar ninguém, mas também sem ter a opção de impedir que a manifestação ocorresse.
A Lorna, que acabara de descobrir que estava grávida, também não foi poupada.

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Como sempre, elas seguiram sendo tratadas como lixo (alguns diriam animais, mas acho que os animais também não devem ser maltratados).
O presídio deveria ser um local de reabilitação: uma oportunidade para que um criminoso deixe de ser um criminoso. Mas veja bem: a grande maioria nasce BEM abaixo da linha da pobreza. O crime começa quando eles (no caso da série, elas), precisam roubar pão para sobreviver. E partindo disso, só piora, porque elas vivem em locais violentos, e para sobreviver, são obrigadas a aprender a se defender. E sinto muito, não tem como se manter viva defendendo-se de uma arma carregada com uma flor.
Não existe, não tem como. O desespero sempre fala mais alto.
Sabe o que resolveria isso? Educação. As exigências que as prisioneiras listaram incluíam um supletivo para que elas pudessem ter melhores condições de vida quando saíssem da prisão (isso se saíssem), tornando-se assim, cidadãs melhores. Elas queriam sair sem voltar àquela realidade de ter que escolher entre matar ou morrer.
Elas queriam comida comestível, absorventes (nem isso não tinha), e o que elas ganharam em vez disso? Porrada, soco, tiro, maus tratos. Mesmo as mais pacíficas, eles não fizeram a menor questão de diferenciar, porque na opinião deles, elas não são seres humanos.
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Um conhecido uma vez me disse que essa série era realista, e eu fiquei na dúvida se concordava ou não, afinal, aquele romance da Dayanara com o guarda no começo da série foi muito Disney, entende? Mesmo ele sumindo do nada (e eu ainda acho que ele foi coagido ou que fizeram algo com ele, porque antes disso ele tava louco pra se entregar, e quem acabou se entregando no lugar dele foi o Mendez). Sem falar nas detentas assistindo TV, rindo, e o Caputo ser um diretor que quer melhorar a prisão, mas nunca conseguem porque não é ouvido. Fica difícil de acreditar que existem pessoas assim em posição de poder.
E outra: algumas detentas foram presas por assassinato, mas eram muito meiguinhas lá dentro. Apesar de volta e meia haver brigas entre detentas (algumas bem violentas), algumas são até muito dóceis umas com as outras. É difícil de imaginar que isso seja possível, mas talvez eu só esteja tendo o mesmo pensamento que aqueles guardas: se foi presa, foi porque cometeu um crime, e se cometeu um crime, então não é mais um ser humano, é um monstro que merece ser torturado até o dia de sua morte.

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Pesado, né? Essa série me faz refletir sobre o seguinte: a gente sempre olha no espelho achando que vê um anjo justiceiro, querendo punir os maus e enaltecer os bons. Mas esquecemos que não temos bola de cristal para saber como é a vida de uma pessoa. Esquecemos de que ninguém é o mesmo pra sempre, que pessoas mudam, e que circunstâncias desastrosas influenciam SIM as atitudes de uma pessoa.
É muito fácil dizer "eu não faria isso" quando você nunca precisou fazer algo hediondo para sobreviver (exemplo: Alex Vause matou um guarda, porque se não matasse, ela é que seria morta). É muito fácil dizer "eu não faria o que essas detentas fizeram, eu não usaria tortura como vingança" quando você nunca viveu em um sistema que te tortura todos os dias. E também é muito fácil dizer "eu não torturaria detentas como forma de punição", quando seu chefe não te obriga a fazer algo assim. Quando sua renda não depende disso, quando seu cérebro não é lavado para que você se sinta um herói por agir assim.
Mas sim, eu entendo esse sentimento de rancor, eu sei de onde ele vem: imagine se é com você, um dos seus familiares é baleado na sua frente, o bandido some. O que você quer que aconteça com ele?
Ou sei lá, imagine que você é uma mulher, e é estuprada por um desconhecido, ou pior: por um familiar.
Num momento desses, quem é que pensaria em como o criminoso se tornou um criminoso? Quem é que daria uma de Jesus e tentaria ter empatia, considerando-o apenas uma vítima das mazelas da sociedade e das culturas impostas a nós?
Muito difícil. Nosso psicológico é seriamente abalado em uma situação dessas, eu nunca passei por nada assim, mas vi depoimentos de outras pessoas no Facebook (pages feministas e portais de notícia estão aí pra isso), e por um bom tempo, a pessoa só sofre, chora. Fica hospitalizada por depressão, e depois é necessário um grande esforço para esquecer e não se deixar corroer pelo rancor e/ou pelo luto.
Então imagina uma pessoa dessas saber que criminosos são torturados na cadeia? Ela vai aplaudir de pé como eu aplaudi a vingança contra os seguranças da prisão.
É aí que a gente se dá conta que o rancor, a raiva, a vingança, a violência... está tudo dentro de nós, e só a gente que não quer assumir.
De um jeito ou de outro, somos levados a querer que outra pessoa sofra por ter-nos feito sofrer, por ter feito alguém sofrer, ou por apenas ACHAR que a pessoa fez alguém sofrer.
Aquele caso do garoto que foi tatuado na testa por supostamente ter roubado é um exemplo, olha quanta gente achou aquilo engraçado e digno? Depois descobriram que ele não faz nada (clique aqui para ver mais sobre o caso).

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E como mudar uma realidade fodida dessas? Difícil dizer, porque se mesmo em uma série de ficção uma tentativa de revolução teve um final catastrófico, imagina na vida real? Nós só sabemos julgar, mas não sabemos resolver nada. Nós não temos conhecimento o suficiente para saber o que fazer. Talvez até tenhamos, mas não temos recursos ou poder político o suficiente para isso.
Olha o Brasil, por exemplo: o que acontece quando cidadãos comuns resolvem se manifestar contra a PEC 55? Apanham dos militares e ainda viram motivo de piada para o presidente.
O que aconteceu nas manifestações de 2013? Milhares de cidadãos morreram (muitos apenas por estar passando perto do ocorrido, sem ter feito nada). O valor da passagem foi reduzido, mas rapidamente aumentou de novo e nenhuma mudança ocorreu até agora (corrigindo: nenhuma que preste).
O que aconteceu esse ano mesmo, quando os sindicatos causaram um protesto contra a reforma trabalhista? Violência, violência e mais violência. E o presidente rindo, como sempre. Que eu saiba o processo dessa reforma foi interrompido devido às polêmicas da JBS, mas mesmo assim não muda o fato de que pessoas são agredidas quando tentam exigir seus direitos.
Tem os extremistas? Tem. Mas quem está tentando agir pacificamente é levado junto com eles, porque estão todos no mesmo lugar. Apenas por isso.
E o que fazer pra mudar o modo como os militares tratam os manifestantes? Tirando o presidente que manda eles fazerem isso? E quem vai ficar no lugar? Se ele sair esse ano, Rodrigo Maia. Se ele não for reeleito ano que vem (se é que ele vai poder se candidatar), quem vai? Bolsonaro?
Eu tenho é medo do nosso futuro.

E foi nesse clima deprimente de não saber onde o mundo vai parar que eu terminei essa temporada. Se eu já tenho dificuldade em andar de ônibus sem olhar pra janela filosofando sobre várias coisas, então imagina ver uma série mostrando o quanto a realidade pode ser cruel pra quem não nasceu em condições favoráveis? E no quanto a gente mesmo é cruel sem perceber?

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