50 Tons de Romantização de Relacionamentos Abusivos

Em 2011 foi lançado o famoso best seller 50 tons de cinza, e as opiniões do público se dividiram em dois grupos (incluindo gente que nem tinha lido e falava aquilo com base nos comentários alheios): os conservadores que ficaram chocados com os palavrões e as cenas explícitas (o que é burrice da parte deles, já que se trata de um livro erótico e é óbvio que ia ter esse tipo de coisa), e os fãs que acharam lindo e desejaram ter um Christian Grey em suas vidas (burros também, já explico o porquê).
Por um tempo, eu era uma dessas burras que se recusava a ler o livro porque muitos odiavam, e por ser considerado uma putaria. O tempo passou, e eu passei a achar que "ser puta" não é o pior defeito que uma mulher pode ter, logo minhas críticas em relação à fama do livro amenizaram um pouco.
Até que eu vi uma page feminista dizer que a história mostra um relacionamento abusivo e isso mexeu com a minha curiosidade. Eu precisava ver, saber se era abusivo e por que era. 
Quando eu li, achei triste o fato de que muitas fãs queriam ter um homem como Grey. Clique em continue lendo essa merda para saber o motivo.

Autora: E.L. James
Editora: Intrínseca
Nota:  

Pra quem nunca leu, vou resumir: Anastasia Steele, uma estudante de letras de 21 anos, teve de entrevistar o jovem CEO ricaço Christian Grey como um favor para sua melhor amiga Katherine Kavanagh, que estava doente. Ao se conhecerem, Grey se viu obcecado pela tímida estudante e decidiu ir atrás dela para tentarem uma relação que ele chamava de BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo, segundo a wikipédia kkkk). 
Como ela era virgem, ficou apavorada com os "gostos peculiares" de Christian (como ele descreveu), mas quem disse que ele se importava, né?
Agora sim começam as críticas (e os spoilers, portanto, cuidado).
Primeiramente, vou falar da insegurança de Ana: desde a primeira página do livro dá pra notar que ela possui um complexo de inferioridade em relação à sua melhor amiga, que por uns segundos parecia até uma rival de colégio, considerando o modo recalcado como a Srta. Steele a descreveu. Nota-se que a protagonista não se sente bem consigo mesma, e segundo ela, sua melhor amiga é tudo o que ela queria ser: um "mulherão", confiante, persuasivo e com habilidade para falar em público. O que ela não sabe é que ela poderia ser tudo isso se aprendesse a confiar em si mesma. Eu não a culpo, óbvio, muitas mulheres se sentem assim, diminuídas, mas foram exatamente esses problemas de auto-estima que a colocaram nas garras do dominador Christian Grey. Porque se ela se sentisse tão fodona quanto ele diz que ela é, não teria cogitado estar com alguém como ele nem por um segundo.
Agora vamos falar sobre o sr Grey: ele teve uma infância difícil. Sua mãe biológica era uma prostituta drogada que vivia apanhando de seu cafetão (e que batia nele também). Ele passava muita fome, e pelo que pareceu, quando ela morreu ele foi adotado pela família rica dele, em relação à qual se sentia inferior. Aos 15 anos conheceu a pedófila Helena, com a qual teve uma relação "BDSM" (coloquei entre aspas porque segundo um texto que eu li, os adeptos disso ficaram indignados por terem sido representados de modo tão abusivo). O que ele sente por essa mulher (amizade), pode muito bem ser considerada uma Síndrome de Estocolmo, já que ela deveria ter sido presa pelo que fez. Segundo ele, ela também o introduziu no mundo dos negócios, e se não fosse ela, ele não seria tão rico quanto é e talvez estivesse morto (porque teve depressão na adolescência e já cogitou o suicídio).
Primeiro, ele avisou Ana de que era melhor ficar longe dele. Depois, comprou presentes caros que obviamente deixaram ela confusa. Apenas uma jogada para atraí-la.
Confesso que esse lado dele me confundiu. Em Grey (o quarto e último livro), ele é bastante vitimista e se sente um monstro não-merecedor do amor de Anastasia. O psicólogo dele (Dr. Flynn), é um puto de um charlatão, se querem saber. Mesmo após ele contar toda a sua história com sua "amada", tudo o que o "profissional" falou foi "muita coisa aconteceu na sua vida desde a última vez em que esteve aqui, hein?", e sugeriu que, para que tudo desse certo, Christian tentasse um relacionamento no estilo de Ana. Um "relacionamento baunilha, com flores e bombons", como o problemático definia.
Não houve nenhuma menção ao comportamento obsessivo, perseguidor, manipulador e abusivo do paciente. Não houve nenhum aviso do quanto isso poderia prejudicar a saúde mental da garota. Em vez disso, houve consolo: "você não é o monstro que acha que é, você merece ser amado".
Que eficiente, não? Acho que alguém comprou o diploma...
"Você vai fazer amor comigo agora?" "Duas coisas. Primeiro: Eu não faço amor, eu fodo. Com força." Ele disse isso para uma virgem e não se importou com a dor dela, com as lágrimas dela. O que importava era seu prazer e seu ego.

Agora vou responder ao que você deve estar se perguntando: por que aquele relacionamento era abusivo, afinal?
Bom, logo na entrevista, quando ele a viu pela primeira vez, Anastasia perguntou se ele era gay (as perguntas tinham sido feitas pela amiga dela). Olha o que ele pensou:

"Como é que é? Não consigo acreditar que ela tenha dito isso em voz alta! Ironicamente, a pergunta que nem meus próprios familiares fariam. Como ela se atreve? Tenho um desejo súbito de arrastá-la da cadeira, curvá-la sobre o meu joelho, espancá-la e depois comê-la na minha mesa com as mãos amarradas atrás das costas. Isso responderia à sua pergunta ridícula."
Não vou nem comentar a homofobia presente nesse trecho, perceberam que ele sentiu vontade de estuprá-la apenas por ter perguntado se ele era gay? Isso é doentio. E ele acabou estuprando-a mesmo. 
Em outra parte, quando eles já estavam discutindo aquele tipo de relação que ele gostaria de ter, eles estavam trocando emails. Ela brincou "legal, foi bom te conhecer", como quem diz "é... não te quero mais, não". Ele não percebeu que era brincadeira, e em vez de reclamar de não ter gostado ou apenas deixado para lá, já que supostamente ela não queria mais nada com ele, ele dirigiu até a casa dela, entrou abruptamente sem ter permissão para tal, invadiu o quarto dela e a castigou por isso. 
Ela não queria sexo, e deixou isso bem claro ("não - eu protesto, chutando-o para longe"), e a resposta dele foi a seguinte: "Se você se debater, eu vou amarrar os seus pés também. Se você fizer algum ruído, Anastasia, eu vou sufocar você. Fique quieta. A Katherine provavelmente está lá fora ouvindo, agora".
Eu fiquei apavorada com essa cena. Mesmo sendo um livro "erótico", eu acho que erotismo tem a ver com o prazer e o consentimento de ambos, e não com isso. Estupro é crime.
Ele não teve a menor vergonha de dizer que estava com vontade de fazer isso desde que ela perguntou se ele era gay.
Por que os fãs de 50 Tons gostaram tanto desse homem? Não consigo entender, ele é um psicopata. E o pior é que, se essas pessoas acham ele tão incrível, isso significa que se elas conhecerem um homem assim, viverão a mesma história.
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Outro detalhe: nesse "relacionamento", Grey fez com que Anastasia assinasse um acordo de confidencialidade para não contar a ninguém sobre os detalhes sórdidos. Bastante conveniente, não? Assim ela não teria permissão para desabafar com sua melhor amiga, que certamente avisaria a polícia sobre isso. Pelo menos é o que eu faria.
E também havia outro contrato que ela precisava assinar para concordar com o tal BDSM. Não, ela ainda não tinha assinado quanto ele foi lá estuprá-la.
E o contrato é totalmente desigual: ele diz que ela deve trepar com ele quando ele quiser, que ele pode puní-la caso ela quebre as regras, e que ele pode terminar aquilo quando bem entender, mas se ela quiser terminar, precisaria da permissão dele.

Em outra parte do livro, ela vai para Georgia visitar sua mãe para refrescar a mente e pensar nisso com clareza, explicando para ele que não conseguia pensar com clareza quando ele estava por perto.
Em vez de respeitá-la, ele pega um avião e vai até lá seduzí-la para que ela fosse persuadida a assinar o acordo.
Não há nada de consensual nesse livro, apesar de serem dois adultos. A história traumática de Grey não justifica suas atitudes.
Os fãs costumam resumir a história dizendo que "no começo Ana não gostava daqueles gostos peculiares, mas depois começou a gostar", sendo que na verdade ela nunca chegou a gostar daquilo de verdade. Ela se forçou a tentar gostar porque era insegura, se achava sem graça, e Grey era um homão milionário. Quais eram as chances de um homem desses gostar de uma mulher como ela? Ela tinha medo de perdê-lo, e achava que nunca mais viveria um amor novamente se isso acontecesse, por isso fazia o que ele queria. Ela chorava, sentia dor, sofria, e se perguntava se seria igual com qualquer outro homem, se todos tinham esse jeito ninfomaníaco e sadomasoquista (se bem que não dá pra chamar ele de sadomasoquista porque ele não queria ser tocado, só a Anastasia era obrigada a apanhar).
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"É disso que você realmente gosta? De mim, assim?"

No final do primeiro livro, ela quis saber qual era o grau máximo de dor das punições que ele gostava de dar, então ele deu seis cintadas fortes nela e obrigou-a a contar. Ela chorou, gritou e estava sem forças e sem fala para pedir para parar. Ele nem sequer perguntou se ela estava bem, porque deduziu que fosse prazer (oi???), e quando ela surtou, ele ficou chocado. Como se fosse algo anormal ela se sentir daquele jeito depois de ser espancada. 
Ele também disse várias páginas antes que gostava dela dolorida, para lembrá-lo de que ele esteve ali e ter aquela sensação de controle. Eu não sei como alguém pode ler isso e não se sentir indignado(a).

O post já está enormemente longo, então vou falar apenas mais um fato estúpido sobre esse livro. No começo, Ana se embebedou em uma festa e acabou ligando para Christian, se recusando a dizer onde estava. Ele a rastreou e foi atrás dela (o que é contra a lei). Lá, ele flagrou uma cena: José, "amigo" dela, tentou beijá-la a força. Dando uma de herói, Grey o despachou de lá e ajudou Ana a vomitar. Em seguida, em vez de levá-la para casa, levou-a para seu apartamento. Quando ela acordou, sentiu necessidade de perguntar se ele tinha transado com ela enquanto ela dormia, e ele ainda achou ofensivo. Sendo que ele fez coisas igualmente abusivas no restante da história e achou completamente normal. Ele ficava indignado quando Ana falava com esse amigo (que nunca repetiu aquele delito), sendo que ele fez coisas totalmente piores com ela.
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"Por que eu estou aqui, Christian?"

Ainda estou estarrecida com isso, e é impossível reduzir o tamanho do post porque não tem como falar de um história horrível dessas usando poucas palavras. Eu não sei como uma mulher pode ter escrito isso com a intenção de romantizar, não tem nada de romântico em ser manipulada, perseguida e estuprada. Ela criou aquilo inspirada em Crepúsculo, e a "semelhança" é que tanto Bella como Anastasia são tímidas, virgens e não muito femininas, ao passo que Edward e Grey são "poderosos".
Achei um absurdo, porque apesar de não ter lido os livros da saga Crepúsculo, eu vi os filmes e Edward nunca destratou Bella daquele jeito, nunca a machucou propositalmente, ele a protegia e queria o bem dela.
Eu adoraria saber o que a autora tem a dizer sobre as características abusivas que algumas pessoas encontraram no livro. Infelizmente a cultura machista faz com que muitas pensem que ser submissa a um homem e satisfazer seus desejos à todo custo é algo romântico e desejável.
Isso tem que mudar.


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5 Fumados comentaram aqui

  1. Nunca cheguei a ler os livros e nem vi os filmes pq não gosto do gênero erótico e depois de ler seu post mostrando esse lado horrível dos livros, fiquei pensando "como uma mulher pôde escrever algo assim ?", ainda mais agora que o feminismo está sendo muito falado e as mulheres estão se emponderando cada vez mais.
    Porém, como sou uma pessoa muito curiosa, vou querer ler apenas para ver com os meus próprios olhos tudo isso e para ter uma opinião formada.

    Gostei muito do seu post, pois ele mostra um lado da história que muita gente não sabe ou talvez não tenha percebido!
    Sua resenha foi muito bem escrita!

    Beijos
    Inverno de 1996

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  2. É que os livros foram publicados em 2011, quando ainda não havia essa discussão sobre feminismo nas redes sociais (estávamos na era do orkut e msn ainda), e eu pensei a mesma coisa "como uma mulher pode ter escrito isso?", mas depois de refletir um pouco sobre a educação que algumas recebem, de que devem ser sensuais, agradar os homens e que casar é o ponto alto da vida, entendi um pouco.
    Enfim, obrigada pelo comentário, fico muito feliz que tenha gostado do post =)

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  3. Eu li só o primeiro livro e olhei os 2 filmes não sei por que teve continuação , achei ridículo ele é um psicopata sádico dos infernos isso sim é claro que seu dinheiro ajuda a facilitar as coisas , essa saga não é romance , e não sei da onde isso é romântico , me preocupou bastante uma mulher escrever isso , e achei muito horrível saber que tem fã mulher da saga bjs ;) amei o post ....

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    Respostas
    1. brigada parenta, e realmente, é bastante preocupante saber que uma mulher escreveu isso achando fofo ou sensual sem perceber que estava descrevendo uma história de relacionamento abusivo.

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  4. TUDO precisa ser analisado em contexto... Imagina, às pessoas saem por ai achando que sabem a razão da existência, a razão pela qual algumas pessoas possuem saúde e outras não... Eles não sabem de nada. Não sabemos de nada... Tudo uma grande invenção
    sobre o que é certo ou errado. Ficamos apenas mudando tudo, mudando conceitos e ideias, mudando a natureza do corpo, da mente, etc. Mas em que direção? Por qual razão? Para onde? Com que velocidade? Qual a melhor intensidade? - Chegam e dão opiniões rasas sobre o que desconhecem. Isso é ruim, isso deve mudar... Como se a mudança sempre fosse algo bom. O status quo quer que você siga as regras. Tenha uma vida repetida, sem graça e determinada por regras aleatórias que não funcionam independentes e muito menos quando estão relacionadas em forma de lei ou no "inconsciente coletivo". Milhares foram as bandeiras que a humanidade, sociedade, ser humano levantou ao longo dos anos... Mas não é nada além de um grande "passa tempo". Passando o tempo. Acredite, entenda, assimile... Apenas passando o tempo... O tempo é tudo que somos... A vida é sua. Estrague-a como quiser, ou não. Diferença nenhuma. NÃO HÁ CERTO OU ERRADO. Ninguém possui a CERTEZA de nada em um contexto maior e realmente relevante. --- Quer um exemplo? Veja as palavras criadas que não possuem razão de ser... O que é "tudo"? Isso não existe. Algo inimaginável não existe. O que é "nada"? Nunca será capaz de atingir essa resposta... O que é "Deus"? Outra palavra sem sentido. Mas a melhor de todas e´a palavra "Fé". Quando não existir NADA que explique, justifique, demonstre algo, diga apenas: "Tenho fé". Pronto. Tudo, então, fará sentido e então entenderá que o sentido não existe. ---------

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Obs: Não pagarei seu cardiologista nem seu psicólogo/psiquiatra caso acabe precisando.