O perigo mora nos bastidores

Lançado em 14 de julho desse ano na Netflix e dirigido por Marti Noxon (responsável por produzir alguns episódios da série Grey's Anatomy, por roteirizar o filme Eu sou o Número Quatro, entre outros trabalhos) , o filme conta a história de Ellen: uma adolescente que, sem esperanças, lida com os sintomas da Anorexia. 
Certo dia, ela encontra um médico com métodos um tanto diferentes, e é internada junto a outras pessoas que passam por transtornos alimentares. 

O filme foi feito com a intenção de conscientizar os espectadores sobre quão séria é a doença, e como o papel da família é importante no processo de recuperação.
O objetivo do filme é lindo, mas tem alguns problemas, em primeiro lugar, Lilly Collins, a personagem principal:
Ela é ex-anoréxica, e fizeram ela emagrecer para interpretar Ellen. Acredito que o motivo disso era deixar a produção mais realista, evitando "erros" como o de Skins (a personagem Cassie sofria de Anorexia, mas tinha um corpo normal que, apesar de magro, não se assemelhava com o que as pessoas esperam de um portador dessa doença -falarei disso mais tarde).
Será que não é um pouco arriscado fazer uma pessoa com um passado psicológico frágil a emagrecer tanto a ponto de ficar pele e osso?
Isso é perigoso, mesmo pra quem nunca teve essa doença. Supostamente eles fizeram isso de modo saudável, com nutricionistas, mas como pode haver uma maneira saudável de ficar parecida com uma pessoa doente, que corre o risco de morrer se não for tratada de modo adequado?
Pra mim não faz sentido, como a personagem da atriz pode estar doente e a atriz não?
Fazer uma ex-anoréxica emagrecer de verdade para interpretar uma anoréxica seria o mesmo que fazer um ex-deprimido se cortar de verdade para interpretar um personagem com depressão profunda. Lilly Collins não se sentiu ameaçada, e até defendeu o longa, mas isso não muda o fato de que ela poderia acabar tendo recaídas por precisar reviver uma história dessas. 
No filme Amanhecer, em Crepúsculo, a personagem de Kristen Stewart também passou por problemas alimentares. Entretanto, o emagrecimento foi feito por meio de edição gráfica. Em momento algum a atriz teve que fazer dieta para combinar com o papel, como podem ver no seguinte trecho:
“Alterar o corpo de Kristen Stewart foi um desafio incrível,” admite Edson Williams. “Felizmente, a Legacy criou um manequim absolutamente incrível de uma Bella emagrecida; nós constantemente nos referimos as deformações no corpo de Bella. Muitas das filmagens tinham deformações de rosto e corpo, então nós emagrecemos os antebraços e pernas de Kristen, e adicionamos cristas ósseas a dobra de seus dedos.” O material de referência original teve que ser abandonado. “Durante nossa fase de desenvolvimento inicial do ‘Efeito Bella’ nós vimos imagens de jovens mulheres famintas. As imagens eram apavorantes, e nós imediatamente começamos a procurar por outra fonte, algo mais suave. Nós acabamos nos referindo a modelos de passarela e moda com essas mandíbulas e maças do rosto definidas.” Ajustamentos tiveram que ser feitos. “John imediatamente notou que estávamos reduzindo a largura da linha da mandíbula de Kristen Stewart; uma vez que restauramos a largura original, ela imediatamente pareceu mais magra.” As principais referências em 3D foram utilizadas pra cada filmagem. “Lola VFX desenvolveu um truque para emagrecer uma imagem em 2D localizada em uma geometria 3D. Essencialmente, nós tivemos duas cabeças 3D de Kristen Stewart, uma normal e outra que estava abatida em Z-brush. Projetamos a fotografia da placa para o modelo normal de 3D; em seguida, com base na superfície normal, transferimos a cor para o modelo 3D encolhido. Funcionou porque os dois modelos tinham os mesmos números de vértices, e nós fomos deformando a espinha orbital e as maçãs do rosto."
Talvez os produtores de O Mínimo pra Viver não tivessem condições financeiras de arcar com as despesas de uma tecnologia tão avançada. Mas aí é que tá: se eles não possuem meios de criar um filme sem usar métodos arriscados com seus atores, então é melhor que não haja filme. 
Isso sem falar que o trailer dá a entender que ter essa doença é engraçado, divertido e poético. Ter uma doença grave não é engraçado e muito menos poético, é perigoso. 


Outras coisas que não gostei: por que em todo drama de "conscientização" tem que ter um romance no meio? Eu até diria que isso implica em esperar que um romance seja a cura para a doença, mas como não é isso que aconteceu no filme, vou deixar para lá. Só é repetitivo mesmo, e ainda faz com que algumas pessoas percam o foco do assunto central e passem a shippar o casalzinho.
Também vi algumas suposições de que o filme reforça estereótipos relacionados à doença, dizendo que ela não afeta apenas mulheres brancas e magras, mas também pessoas dos mais diversos pesos(e de qualquer gênero). O texto dizia que quem não se enquadra nesses padrões poderia desistir de procurar ajuda, pois não se sentiria "doente o suficiente" para ser tratado. 

Falava também que, em algumas cenas, o filme se torna um manual de "como fazer" para os portadores da doença, que poderiam usar as táticas mostradas no filme (como cuspir alimentos num guardanapo em vez de engolir, subir a escada e descer várias vezes para tentar perder peso, etc).
Mas o texto era do Pragmatismo Político, então deixei pra lá. Concordo apenas com a questão de influenciar os doentes de forma negativa, e sobre a questão dos estereótipos, não posso ter certeza absoluta pois não sou especialista na área.
Mas é certo que fazer dieta por conta própria é um risco à saúde de qualquer pessoa, independente do peso. Só quem pode dizer quais alimentos a pessoa deve cortar é um(a) nutricionista, porque convenhamos, passar dias sem comer nada, ou comer apenas um tomatinho o dia inteiro não faz bem pra ninguém.

Enfim, é necessário tomar cuidado ao produzir obras cujo intuito é a conscientização de um problema sério, pois qualquer erro pode levar a um efeito indesejado, como o aumento dos índices do transtorno abordado.

Fontes:

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2 Fumados comentaram aqui

  1. Gostei muito da postagem, e até fiquei curiosa para ver o filme. Nunca estive em contato com pessoas que tem disturbios alimentares, e seria interessante ver mais de como é.
    É estranho mesmo fazerem uma ex-anoréxica emagrecer para interpretar uma ex-anoréxica, é quase doentio - muita coisa pode dar errado-.



    www.charmosasideias.com

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    1. Também nunca convivi com quem passa por esse tipo de problema, mas mesmo assim me preocupo, porque né. É horrível saber que existem pessoas morrendo por causa de um padrão.

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Obs: Não pagarei seu cardiologista nem seu psicólogo/psiquiatra caso acabe precisando.